Ele não precisou dizer uma só palavra para reforçar a condição de maior ícone da música popular brasileira, posto que ocupa involuntariamente há pelo menos 40 anos. Durante os shows apresentados em Natal, no Teatro Riachuelo, Chico Buarque limitou-se a distribuir sorrisos, agradecer a presença do público e fazer o que faz de melhor: cantar e encantar.
Yuno Silva
Perfil discreto do artista já faz parte do spetáculo e sua aparente apatia é logo justificada pela conhecida timidez
Cultuado pela sofisticação de suas letras e arranjos, amado pelas mulheres e admirado pelos homens, o perfil discreto do artista já faz parte do espetáculo e sua aparente apatia é logo justificada pela conhecida timidez, fator que limita improvisos e não deixa brechas para extrapolar um milímetro sequer o cronograma - tudo é impecavelmente calculado e previsível. Apesar de comedido, econômico nas palavras e nos gestos, Chico Buarque seguiu à risca todo o script pré-estabelecido e atendeu às expectativas de uma plateia lotada, ansiosa e disposta a ser abduzida se fosse preciso.
A reportagem do VIVER acompanhou, na segunda-feira (28), o primeiro dos dois shows agendados e constatou que não é preciso pirotecnia sonora ou virtuosismo para comprovar a qualidade musical.
Antes de chegar ao teatro, porém, o cantor e compositor potiguar Romildo Soares disparou à queima-roupa: "Vai ver 'deus' hoje?". Foi preciso alguns segundos até processar a informação e formular uma resposta afirmativa - era apenas o prenúncio da responsabilidade em testemunhar um fato histórico, afinal Chico Buarque não se apresentava em solo potiguar há 30 anos - seu último show foi no Juvenal Lamartine, ao lado de João do Vale em prol das vítimas da seca.
O SHOW
Marcado para as 21h, Chico surgiu no palco com 30 minutos de um atraso estratégico que permitiu ao público se acomodar com tranquilidade - afinal o que são 30 minutos para quem aguardava há tantos anos a oportunidade de ver de perto, ao vivo e em cores, um dos maiores ícones da MPB. Sob efusivos aplausos e gritos de "É ele mesmo!", "Nem acredito!" e "Lindo!", este repetido à exaustão a cada intervalo entre uma música e outra, o público foi tomado por um sentimento misto de incredulidade e êxtase.
Por trás do cenário móvel, um painel em preto e branco com traços econômicos, a banda estava pronta; enquanto na plateia, mãos inquietas pelo aplauso e letras na ponta da língua aguardavam a hora de entrar em ação. Camuflado no fundo do palco, com seu recorrente figurino preto, Chico apenas observava e aguardava a hora certa de entrar em cena. A técnica perfeita do espetáculo comprovaram o alto nível da performance: som cristalino, iluminação elaborada, cenário simples e bonito assinado pelo lendário cenógrafo Hélio Eichbauer, e banda de instrumentistas experientes que já tocam com Chico Buarque desde os anos 1980. Com uma plateia disposta a qualquer comando do artista, Chico entrou em campo com o jogo ganho e manteve o público sob total controle durante as pouco mais de duas horas de apresentação.
Com peculiar ar de nobreza, Chico Buarque apareceu e foi direto ao assunto: música! Pegou seu violão, abriu o show com "O velho Francisco" (Já gozei de boa vida / Tinha até meu bangalô / Cobertor, comida / Roupa lavada / Vida veio e me levou...), e seguiu todo o repertório anunciado: cantou as 27 canções do programa, incluindo as inéditas registradas no recente álbum "Chico", lançado em julho de 2011 - não por acaso o nome da turnê.
Também dividiu os vocais com o baterista Wilson das Neves em duas músicas, "Sou eu" e "Tereza da praia", apresentou uma versão hip-hop de "Cálice" versão interpretada pelo rapper paulista Criolo, e interpretou pela primeira vez ao vivo a clássica "Geni e o zepelim", um dos muitos pontos altos do show - intercalando composições novas, clássicas e outras pouco conhecidas. Em alguns momentos a melancolia tomou conta do show e baixou um pouco o facho da ansiosa e comportada plateia.
Terminada a série, o público não arredou o pé e o artista ainda voltou para 'bis' duplo: "Barafunda" e "Futuros amantes"; e na sequência "Na carreira" - tudo dentro do previsto. Antes de se despedir definitivamente, fez questão de cumprimentar a turma do gargarejo no melhor estilo 'jogador de basquete': com o mar de mãos estendidas à sua frente, Chico Buarque correu e bateu nelas como se selasse a parceria. A passagem de Chico Buarque por Natal encerra a turnê nacional de "Chico", nome do novo disco e do show, iniciada em novembro de 2011, em Belo Horizonte. O cantor e compositor carioca foi visto por cerca de 130 mil pessoas durante esse período, e na capital potiguar os mais de três mil ingressos postos à venda (com valores entre R$ 360 e R$ 380) se esgotaram em uma semana. Diante do que foi apresentado no Teatro Riachuelo, uma coisa é certa: o ingresso valeu cada centavo do investimento.
Fonte: Tribuna do Norte
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